Humanidades

Mirando no furacão – Livro de André Singer interpreta o Brasil na tormenta reacionária
Em nova obra, o cientista político e professor da USP busca compreender os anos recentes no País em meio ao movimento conservador mundial
Por Gustavo Xavier - 08/11/2026


O cientista político e professor da USP André Singer – Foto: Marcos Santos/USP Imagens


Travessia. Assim terminam as narrativas e os percursos de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas. E assim se coloca nosso presente, numa mirada otimista. O sertão foi espaço e metáfora, caminhos de fora e interiores do ser humano, percalços e encruzilhadas que atravessam verdes trilhas de buritizais e rasos desérticos como pesadelos. Se aqui se pode atrever essa aproximação, o livro Impasse – O Brasil Diante da Onda Reacionária, de André Singer, também se coloca no meio do redemoinho desse “prolongado período regressivo mundial” para situar o Brasil, suas contradições e possibilidades. A mirada é otimista? Se indicar uma travessia, sim. Porque, do contrário, a permanência nessa expansão da onda reacionária poderá engolir o futuro. 

Não é à toa que, desta vez, Singer se permitiu – se é que não exigiu de si mesmo – assumir uma obra normativa. Nem precisaria se justificar – como ele o faz por honestidade com relação aos leitores –, porque o que se enxerga no horizonte é o desmoronamento da própria civilização, a menos que se tome um lado e se assuma um devir, com seus deveres coletivos.

André Singer é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A julgar por seus textos, especialmente nesse livro mais recente, é também escritor de mão cheia. Além do rigor milimétrico e científico, ele elabora uma escrita dançante, por vezes brejeira, que brinca com elementos que passam até mesmo pela cultura pop. Seu molejo serve não apenas como generosidade à leitura, mas como antena que recebe e transmite sinais no meio daqueles que devem assumir o protagonismo pela transformação do horizonte. Singer usa a linguagem como produto intelectual orgânico que pode circular pela sociedade, pois nela está conectado.

Com relação ao seu rigor costumeiro, pode-se afirmar que Singer não dá ponto sem nó. A pluralidade de dados e de referências embasa seu texto, que ele, no entanto, transforma em imagens notórias da realidade atual. De cada amarração complexa de dados emergem entendimentos bem delineados, sem que ele abdique das dúvidas ou incompletudes quando assim se faz necessário.

Capa do novo livro de André Singer – Foto: Divulgação

A forma do mapa

Impasse percorre três focos principais, em sequência: os caminhos da reativação direitista no Brasil, as composições que formaram as coalizões de 2022 e as contradições que marcaram o governo Lula 3. Ao final, aponta os indícios do perigo que atravessa a atualidade e as possíveis forças que podem enfrentá-lo. 

Inicialmente, o livro seria uma coletânea de artigos publicados entre 2020 e 2024. Porém, ao confluir as partes num conjunto, Singer refez os textos, entre janeiro e outubro de 2025, com atualizações até abril de 2026. O resultado final é uma interpretação inédita que elucida muito do movimento da realidade que segue em curso. 

Sobretudo no início do livro, Singer apresenta conceitos centrais e as definições que julga mais úteis ao entendimento do que se propõe. Quando trata do conceito de democracia, no cerne da definição estão situadas a liberdade e a igualdade. Já aí aparece uma das debilidades brasileiras, pois “o Brasil se especializou em retardar os efeitos igualitários da democracia”. O autor não se furta a elencar as manifestações empíricas da democracia, abrangendo direito de voto, qualidade das eleições, produção e oferta de informações alternativas, opções de partidos competitivos, entre outras. Tais expressões, no Brasil, tenderiam a se traduzir num ambiente favorável à escola pública, ao Sistema Único de Saúde (SUS), à Previdência Social, ao Bolsa Família, à valorização do salário mínimo, como alguns exemplos de instituições igualitárias. 

Luiz Inácio Lula da Silva – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Forças que pendem para o fortalecimento de uma “verdadeira democracia” – aquela que reúne não apenas critérios procedimentais, mas aspectos de conteúdo – também oscilam em direção ao seu esfacelamento, de tempos em tempos. Singer recorre a Fernando Henrique Cardoso dos anos 60 e 70 para situar a burguesia industrial, atualmente podendo ser aglutinada no agrupamento de burguesia cosmopolita, como uma fração de classe pendular. Em alguns momentos, move-se em direção ao autoritarismo, em outros, à democratização. Isso faz pensar que, diferentemente do compromisso assumido pelo empresariado – junto a outras representações da sociedade – em defesa da democracia, em 11 de agosto de 2022, agora, em 2026, a burguesia cosmopolita brasileira calou-se ante a disputa eleitoral. Esse silêncio diz algo sobre o movimento do pêndulo? O livro de André Singer não nos alcança até a data presente, mas dá relevo a uma pergunta de grande importância histórica.

Outra contribuição de Impasse é o entendimento de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 foi um golpe, não apenas parlamentar, mas também parlamentarista. A subtração das principais decisões de política econômica do Poder Executivo em favor do Parlamento subverteria a vontade popular. Isso porque, na democracia brasileira, o voto para presidente seria o momento em que as camadas populares mais claramente se pronunciam sobre o que querem do Estado. Pressões da burguesia cosmopolita em relação a pautas como corte de gastos, desindexação da Previdência e desvinculação de pisos para educação e saúde, entre outras medidas, atualizariam aquela especialidade brasileira já mencionada: a de retardar os efeitos igualitários da democracia.

A semente do redemunho

Os mais jovens podem não se lembrar, mas já houve tempo em que a polarização da sociedade brasileira estava adormecida. Quando foi que o beijo principesco despertou a polarização? Não há data exata, obviamente. Mas André Singer observa que, a partir de 2010, as curvas começaram a dar sinais de que o País estava diante de uma inflexão. Posições centristas vão dando lugar aos polos, sendo que à direita, como sabemos, o epicentro magnético estava mais ao extremo da régua. A viravolta da maré capitaneada pelo lado direito do espectro político recebeu a correnteza da Lava-Jato em 2014-2015, da campanha do impeachment entre 2015 e 2016 e da mobilização bolsonarista a partir de 2017, sem se esquecer de Junho de 2013 e da crise econômica de 2015-2016, já abordados no livro anterior de Singer, O Lulismo em Crise: Um Quebra-Cabeça do Período Dilma (2011-2016), publicado em 2018.

No caso do bolsonarismo, Singer captou as forças subterrâneas emergindo já em 2016. Como recordado pelo jornalista Fernando de Barros e Silva num dos eventos de lançamento de Impasse e num de seus textos no site da revista Piauí, em abril daquele ano, o cientista político observou que, entre a parcela da população que recebia acima de 10 salários mínimos, Jair Bolsonaro era o candidato preferido à corrida presidencial. Lembrando que somente em 2017 o capitão de extrema-direita lançaria oficialmente sua candidatura. 

A divisão do eleitorado em segmentos é um dos pontos importantes ao longo do livro recém-lançado. André Singer opta pelos conceitos formulados pelo economista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Waldir Quadros. Nesse caso, as camadas sociais são definidas pela intersecção de rendimentos e ocupação. Não há, portanto, um espelhamento exato com as pesquisas eleitorais, mas a aproximação permite realizar as especulações necessárias às hipóteses do livro. Daí, pode-se presumir que a alta classe média e a média classe média, usualmente, votam à direita; a massa trabalhadora e os miseráveis, à esquerda; e a baixa classe média (ou pobres intermediários), mais flutuante, decide a eleição.

Sim, aqui pode-se adiantar uma das proeminências mais instigantes do livro: os elementos de fascismo. Singer prefere continuar observando a realidade sem nomeá-la assim, mantendo a atenção para enxergar melhor as semelhanças e diferenças com o fascismo histórico. Mas um dos elementos que podem lembrar o regime instalado na Alemanha e na Itália na primeira metade do século 20 é a primazia das camadas médias como sua força motriz que vem de baixo, ou, nas palavras de Trotsky, uma “insurreição plebeia”. Voltaremos ao fascismo mais adiante.

Duas coalizões e um impasse

Analisar as coalizões ao redor da eleição de 2022 produziu um dos capítulos mais saborosos do livro. Talvez o de escrita mais irreverente. Cuidado estético e consistência na articulação de dados se entrelaçam. A leitura vai sendo conduzida pelos contornos fascinantes de um autor que faz jus à linhagem de ensaístas do pensamento social e político brasileiro, alguns dos quais presentes na atual obra. Seu rigor de plasticidade franca deslinda os blocos que dividiram o Brasil no período. Num lado, uma coalizão apelidada de Confederação, em referência ao Sul na guerra civil norte-americana. No outro, a coalizão alcunhada por Singer como Concertación, lembrando a coligação chilena pós-Pinochet. 

Na Confederação, agronegócio, militares e religiosos conservadores compunham uma vasta área que coincidia com as plantations. Nas palavras de Singer: “Com emprego, dólares abundantes e cidades aprazíveis, o enclave onde se curte música sertaneja, tiro esportivo e ideologia conservadora levantou bandeiras como menor tributação sobre o agribusiness, acesso a armas de fogo e afrouxamento da fiscalização trabalhista, do controle ambiental e da demarcação de terras indígenas. Adicionem-se certa xenofobia antinordestina e algum separatismo imaginário para ver o nascimento de um Brasil alternativo, infenso à construção de 1988”.

Na Concertación, segmentos muito mais do que diferentes, para não dizer antagônicos, encontravam-se: “Pobres do Nordeste e banqueiros do Sudeste; sindicalistas-raiz e empresários integrados às modernas cadeias internacionais de valor; quilombolas e oligarquias regionais dissidentes”. 

A frente ampla da Concertación, como se sabe, venceu as eleições de 2022. Após um suspiro de alívio do campo democrático, vieram as dificuldades. Não só os bloqueios de estradas, acampamentos frente a quartéis, culminando na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, como parte da tentativa incendiária dos chamados confederados de arruinar a democracia. A própria coalizão vencedora tinha seus desafios, e não eram simples. Singer discorre sobre a enorme pressão que os cosmopolitas, integrando a Concertación, fizeram para implementar sua agenda de austeridade. Como parte da coalizão que elegeu Lula, as propostas neoliberais desse agrupamento formavam uma muralha imune a um programa popular. Estava dado o impasse. Como atender às camadas oprimidas sem desfazer a Concertación? Aqui, novamente, o silêncio dos cosmopolitas na eleição de 2026 pode significar alguma coisa.

O anúncio simultâneo, em novembro de 2024, de um pacote de corte de gastos e ajuste fiscal, por um lado, e a ampliação da faixa de isenção de imposto de renda e maior taxação sobre quem ganha mais, por outro, pode ser visto como uma amostra representativa desse tenso arranjo dos interesses da burguesia cosmopolita com os das camadas populares. Essa contradição marcou Lula 3. O depoimento de um garçom baiano queixando-se do custo de vida e da violência é trazido por Singer para personificar um lado dessa contradição. Para o autor, a vitória da democracia dependeria de uma vida melhor para trabalhadores como esse. Os anos de 2025 e 2026 trouxeram, finalmente, medidas consideráveis para o lado popular da Concertación. Nem todas contempladas no livro, devido ao fechamento das atualizações em abril. Mas, a quem interessar seguir os passos do autor para além das páginas e datas de Impasse, seu texto para o site A Terra é Redonda, publicado em 2 de novembro, já após o resultado das eleições, pode ser útil.

A hora nebulosa do mundo

Voltemos à questão do fascismo. Singer prefere não conceituar assim o momento atual. Prefere falar em viés fascista. O que não significa que, por isso, seja uma situação melhor. Até o contrário. Se você se lembra do início do texto, para Singer a democracia estaria ancorada na liberdade e na igualdade. Sem uma classe trabalhadora com peso devido nos processos políticos, “o regime democrático tende a ficar oco”. Nesse ínterim, poderia ocorrer um esvaziamento da esfera pública. Não é mal menor. Significaria, nada menos, que a derrocada da própria civilização. O autor lembra as palavras do sociólogo Gabriel Cohn, para quem isso seria uma “ordem assustadora, de fundo bárbaro, que nunca foi vivida”.

Mas Singer formula sua própria visão apresentando outras perspectivas que, como ele, tentam apreender e nomear a tormenta que entenebrece nosso período. Convoca autores de diversas linhas. Desses autores, expõe conceitos como neofascismo, autoritarismo competitivo, Internacional Marrom, totalitarismo, autocracia, novo tipo de dominação, ou “qualquer que seja o nome do monstro cujas pisadas sentimos”. Até onde consegue alcançar, as semelhanças e diferenças em relação ao fascismo histórico o fazem escolher a noção de viés, sem colar o conceito de fascismo, ponto por ponto, na realidade que observa hoje. Mas também sem descartar ajustes futuros.

André Singer é cientista político e circunscreve a si mesmo dentro desses limites. Mas, ao passar de dados sociodemográficos a comportamentos políticos, de considerações econômicas a aproximações psicanalíticas, mesmo preservando os contornos de sua delimitação e o rigor de sua especialidade, repara-se o impulso que o coloca na tradição intelectual que busca totalidade. Marx não está presente apenas na epígrafe do livro. 

Daí resulta uma leitura incontornável para refletir sobre o que se passa. E, ademais, se o nome do monstro pode mudar, sobre como enfrentá-lo Singer é resoluto ao afirmar que “a resposta passará por formas renovadas de organização de classe”. Ele fecha seu livro mencionando algumas medidas palpáveis que deem conta dessa resposta, frisando que “é tarefa de uma esquerda independente, sem deixar a frente democrática”. 

Mesmo sem oferecer receita, o autor sabe quem não pode faltar na preparação do futuro. Atravessar. Afinal, diria Riobaldo: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia”.

 

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